As dificuldades na conciliação Trabalho-Família originam diversas tensões junto dos profissionais da medicina, quer no seio familiar quer ao nível do funcionamento dos hospitais e centros de saúde.

Um estudo realizado junto de 181 médicos da Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP) revela que os médicos consideram mais difícil conciliar trabalho e família no Sistema Nacional de Saúde (SNS) do que no sector privado e, por isso, pedem medidas concretas para que trabalho e família sejam áreas conciliáveis.

O inquérito aos médicos católicos, realizado durante o mês de março, revela que os médicos trabalham em média 47 horas semanais e que a maioria destes profissionais considera que a partir das 43 horas semanais de trabalho existe um claro prejuízo para a vida familiar. 

Com a realização deste inquérito junto dos médicos da Associação dos Médicos Católicos Portugueses pretendeu-se contribuir de forma construtiva para a reflexão de uma temática importante no sector da medicina, transversal a outros sectores da sociedade portuguesa. 

Cerca 39 % dos médicos dão nota negativa para a conciliação trabalho-família no sector privado. Mas, no caso do SNS a situação é entendida como mais grave, com 73% dos médicos inquiridos a avaliarem negativamente a conciliação trabalho-família no Estado.

A maioria dos médicos inquiridos, cuja média de idade é 46,5 de anos, considera que é importante a introdução de um conjunto de medidas e ações a serem implementadas na área da saúde, nomeadamente a melhoria da legislação de forma a permitir a flexibilidade de horário de trabalho e o trabalho a tempo parcial, bem como a possibilidade de reduzir temporariamente o horário de trabalho devido a assistência à família.

O excesso de trabalho e o trabalho por turnos é uma realidade na profissão médica. Cerca de metade dos médicos que participaram neste estudo trabalham por turnos no serviço de urgência e 26% trabalha habitualmente 6 dias por semana. 75,7% dos inquiridos é casado  e tem filhos.

Neste sentido, 98% dos inquiridos defendem a adoção de medidas de conciliação trabalho-família, que promovam a satisfação dos profissionais de saúde, assumindo o Estado um conjunto de boas práticas de responsabilidade social sobre as quais não pode manter-se alheio.

O assunto será debatido no próximo ENCONTRO NACIONAL DA AMCP que terá lugar no dia 21 de abril, no Auditório do Colégio S. Tomás, em Lisboa, com inscrições a decorrer.

«Infelizmente, o Estado dá um mau exemplo»

A população portuguesa está envelhecida, verificando-se uma diminuição preocupante da taxa de natalidade, com Portugal a registar a taxa de fertilidade mais baixa da União Europeia (1,31 nados-vivos por mulher)*.

Pedro Afonso, médico psiquiatra e Presidente da AMCP, sublinha que «a conciliação entre o trabalho e a família é uma das tarefas mais difíceis de alcançar para qualquer casal com filhos» e que «Infelizmente, o Estado dá um mau exemplo». 

«Os jovens médicos são pais cada vez mais tarde e têm uma enorme dificuldade em realizar o desejo legítimo de ter filhos, porque o SNS criou um autêntico monstro que sequestra médicos e enfermeiros, através de um número cada vez maior de trabalho extraordinário nas urgências», afirma Pedro Afonso.

Para Pedro Afonso «a pressão da sociedade está cada vez mais do lado do trabalho, pois a nossa cultura valoriza muito mais o sucesso profissional do que o investimento feito na família. Portugal tem um problema gravíssimo de natalidade e temos obrigação de criar condições para que ela aumente, garantindo a renovação geracional e tornando sustentável o nosso modelo de sociedade».

«O Estado tem de dar o exemplo», conclui.

03 de abril de 2018